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A iniciativa privada deve contribuir com boa parte das dezenas de bilhões de reais que os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 demandarão somente em investimentos em infraestrutura. De partida, ainda sem os projetos a serem tirados do papel estarem definidos pelas 12 cidades-sede, o Núcleo de Logística e Infra-estrutura da Fundação Dom Cabral já estima um aporte de R$ 30 bilhões em estádios, hotelaria e mobilidade urbana. "Isso sem contar as obras para melhorar o acesso aos aeroportos, um grande gargalo em todos os terminais do País", afirma Paulo Resende, diretor do núcleo, em entrevista exclusiva à Revista Investidor Institucional. Leia, a seguir, os principais trechos:

Investidor Institucional - Com base no acompanhamento que vocês vêm fazendo na Fundação Dom Cabral, qual o volume de recursos destinados a investimentos em infra-estrutura para a Copa de 2014?
Paulo Resende - Estamos calculando algo como R$ 30 bilhões, considerando até os estádios. Neste montante estão ainda os investimentos em hotelaria e mobilidade urbana, incluindo rede de transportes, estacionamentos, pátios ou estações de transbordo de passageiros, metrô e corredores de ônibus. Mas essa é somente uma expectativa, porque os projetos específicos ainda não foram desenhados pelas 12 cidades-sede.

II - O que essas capitais já têm definido?
PR - Muito pouca coisa. Os passos até agora foram: uma vez escolhidas as cidades-sede, cada uma delas montou um comitê gestor da Copa; esses comitês acabaram de ser formados nas cidades-sede e estão fazendo, nesse momento, um levantamento de todos os projetos de infraestrutura em andamento, os já planejados e os novos. Com isso, os comitês estão definindo os setores que vão receber prioridade. No caso de Belo Horizonte, por exemplo, já foi decidido que uma área prioritária é a metroviária. No que se refere aos corredores de ônibus, por sua vez, já há vários projetos em andamento, por isso o comitê vai acompanhar esses projetos, mas não haverá priorização de investimentos para o segmento. Em São Paulo, já se descobriu que a questão do estacionamento nos arredores dos estádios é um gargalo, como no caso do Morumbi. Dessa forma, está se definindo que estacionamento, em São Paulo, é um setor a ser investido. No entanto, linhas de metrô já estão sendo implementadas na capital paulista, então o trabalho é só acompanhar essa implementação.

II - Algumas cidades precisam de mais investimentos do que outras?
PR - Os comitês gestores estão descobrindo que, entre as cidades-sede, existe uma diferença muito grande na presença e na qualidade de infraestrutura. Algumas vão começar do zero e outras estão em um estado relativamente avançado na preparação para a Copa. Há cidades em que o estádio atual não pode nem ser reformado, é preciso construir outro; há capitais em que não tem metrô, não tem corredor de ônibus, não tem hotelaria, e até mesmo com a questão do saneamento básico é preciso ter cuidado. Essas cidades, e Manaus é uma delas, estão partindo do zero. Essa diferença entre os estágios das sedes será, na minha opinião, o grande gargalo no planejamento para 2014, porque vai gerar uma pressão sobre os organizadores das cidades com menos infraestrutura para andar mais rápido.

II - Serão necessários investimentos em aeroportos também?
PR - Sob o ponto de vista do terminal aeroportuário em si, foram feitos bons investimentos no Brasil nos últimos anos, e a estrutura de hoje aguenta até a Copa. Claro que é preciso andar mais rápido com as obras de Congonhas e do Santos Dumont, mas esses são projetos em andamento, ficariam prontos de todo o jeito antes de 2014. A grande preocupação é com o que vai além dos terminais: serão necessários investimentos na operação aeroportuária, incluindo despacho de malas, esteiras, logística e aumento da capacidade das pistas, além da capacitação de operadores de torre de controle e controladores de vôo.

II - E o acesso aos aeroportos?
PR - Esse é um caso seriíssimo em todos os aeroportos do Brasil, e as obras necessárias para sanar o problema não entram na conta dos R$ 30 bilhões. Isso demanda muito dinheiro, porque todos os aeroportos do Brasil, sem exceção, não contam com acesso metroviário ou ferroviário, mas só rodoviário. Alguns comitês gestores de cidades-sede estão começando a elencar projetos nesse sentido, que são completamente novos. Não tem nada planejado ou em construção.

II - E nesse caso nada foi orçado ainda pelas cidades-sede?
PR - Não, porque elas estão em dúvida sobre que caminho escolher. As alternativas são: onde tem metrô, expandir a linha até o aeroporto; construir uma via exclusiva para trem de superfície que ligue somente o estádio ao aeroporto; ou ampliar a capacidade atual de rodovias e avenidas. Só vale lembrar que existem alternativas definitivas e outras que são paliativas e servem só para a Copa.

II - O governo consegue dar conta de todos esses investimentos sozinho?
PR - Não só não consegue como não quer. O governo federal, por exemplo, já sinalizou que nem vai entrar no que não for obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). E os governos estaduais não têm dinheiro para tudo isso.

II - Dos R$ 30 bilhões em investimentos estimados inicialmente, quanto deve sair dos cofres públicos e quanto deve vir da iniciativa privada?
PR - Nós temos uma projeção em percentuais. Hoje, estamos falando em 60% da iniciativa privada, caso os investidores se interessem por estádios, e 40% do governo. Se a iniciativa privada de fato não se interessar por estádios, essa relação se inverte, ficando 60% com o poder público e 40% com os investidores.

II - Que tipo de investidor está entre os grandes interessados nos projetos de infra-estrutura relacionados à Copa de 2014?
PR - Fundos de pensão, consórcios formados por empresas, fundos estrangeiros e de private equity. Tem lugar para todo mundo.

II - Desses investimentos em setores que já é sabido que vão receber recursos, quais interessariam mais à iniciativa privada?
PR - Acho difícil um investidor privado colocar dinheiro em estádio. A manutenção é muito cara e, no Brasil, os gestores têm encontrado muitas dificuldades em transformar os estádios em espaços multiuso, que é o que faz com que o empreendimento tenha um aumento de receita interessante e uma boa margem. O espaço multiuso não encontrou um terreno muito fértil no País. O Engenhão (Estádio Olímpico João Havelange, na capital fluminense), por exemplo, foi oferecido para a iniciativa privada logo depois dos Jogos Panamericanos de 2007 e ninguém quis.

II - E onde estaria o interesse?
PR - Em estacionamentos, por exemplo, que é um setor bastante lucrativo. O investimento em hotelaria também passa a ser interessante pelo fato de algumas cidades brasileiras estarem se transformando em espaços importantes para a realização de eventos. É bom que se veja também que o aporte em infra-estrutura hoteleira nas cidades-sede que têm um potencial turístico grande conta com uma atratividade ainda maior - estão contempladas entre as cidades-sede a região amazônica, as praias do Nordeste, o Pantanal. Por fim, um caso a se analisar com mais profundidade, uma vez que os investimentos demandam desembolsos de maior vulto, é o transporte coletivo. Acredito que no que tange a corredores de ônibus o investimento tem retorno garantido. No metrô, já tenho minhas dúvidas, mas ainda assim cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre garantem, com um alto grau de certeza, a rentabilidade para quem investir em metrôs.

II - Os comitês gestores já estabeleceram os moldes da participação privada nos investimentos para a Copa?
PR - Não, esse é ainda um próximo passo. Ainda precisam ser definidos os projetos específicos. Depois disso, os comitês vão analisar quais são os marcos regulatórios e a política de concessão, para aí sim estabelecer o que vai ser feito via Parceria Público-Privada (PPP), o que vai ser só público e o que vai ser só privado.

II - Existe uma estimativa de quando essa parte deve estar pronta?
PR - O que manda, nesse caso, é o tempo da engenharia das obras. Nossa projeção é de que os projetos específicos devem ser definidos até a metade do ano que vem, para o modelo de parceria ser estabelecido no máximo até o final de 2010, quando já deveriam ser abertas as concorrências para os interessados em participar dos projetos.

II - Na sua opinião, existe algum formato para a participação da iniciativa privada que funcione melhor?
PR - Isso vai depender muito do setor. Uma PPP é um modelo muito razoável para a exploração de estacionamentos, por exemplo. No caso de ônibus e metrôs, um formato viável é o que impera hoje em São Paulo, de concessão mesmo. Já no que se refere aos hotéis, funcionaria bem um modelo em que o governo apoiasse os projetos, por meio de um ambiente administrativo favorável às obras, mas em que tudo ficasse efetivamente por conta da iniciativa privada, porque é ela que vai operar os empreendimentos. O formato ideal depende do setor. Eu acredito que o Brasil não precisa inventar a roda, basta que se aproveitem os modelos que já existem. O que o poder público brasileiro não pode criar nesse momento é instabilidade administrativa e regulatória. O investidor precisa de estabilidade.

II - Do jeito que os preparativos estão caminhando, vai dar tempo de ficar tudo pronto?
PR - Muito difícil, principalmente no que se refere às obras de infraestrutura urbana, como metrôs e corredores de ônibus. Para estádios, estacionamentos e hotelaria dá tempo sim, porque são construções muito modulares que envolvem muito pouca desapropriação. Agora, é diferente o caso das obras de mobilidade urbana, que demandam movimentos de desapropriação. Esses movimentos são muito imprevisíveis em termos de tempo.

II - Vocês chegaram a visitar a África do Sul, sede da próxima Copa, ou a Alemanha, onde foi realizada a última, para ver como os preparativos foram conduzidos e fazer um paralelo com o Brasil?
PR - Vamos para os dois países agora no segundo semestre para trazer um dossiê de acompanhamento das obras. No caso da Alemanha, veremos as obras terminadas, e na África do Sul, acompanharemos os términos. Estamos conduzindo todo esse estudo de acompanhamento dos preparativos das cidades-sede da Copa de 2014 dentro do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral. Vamos monitorar as obras até o fim e, sem dúvida nenhuma, apresentaremos nossos levantamentos para todas as cidades de uma forma colaborativa, mas ao mesmo tempo fiscalizadora.
Fonte: Revista Investidor Institucional (SP), agosto de 2009

Categoria: Geral


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