Apontado por especialistas como agravante do caos do trânsito, o uso do automóvel quase sempre com ocupação mínima (chamado de "irracional" por alguns, já que o compartilhamento ajudaria a tirar carros da rua e melhorar o trânsito e a qualidade do ar) tem como protagonistas desde motoristas que não dão carona por convicção até quem nunca se ofereceu para levar o vizinho ou o colega simplesmente porque ignora para onde ele vai. Os outros nove distritos que mais atraem carros por dia também fazem a média de caronas da cidade comer poeira. Junto com o Itaim, Pinheiros, Jardim Paulista e Perdizes, na zona oeste, e Vila Mariana, Saúde, Moema, e Santo Amaro, na região sul, formam a "mancha" do individualismo no trânsito no mapa da cidade. Os "ingredientes" para atrair carros são mais ou menos os mesmos: são de classe média alta, ficam na região central, têm alta concentração de carros por família e grande densidade de prédios altos.
Nesses distritos a quantidade de viagens atraídas por dia supera 100 mil e, em geral, só um a cada três motoristas leva passageiro. A exceção é Perdizes, que com Sacomã (Sul) e Santana (único da Zona Norte) completa o "top 10" do individualismo - a média nos três é de uma carona a cada dois carros.
"Dar carona para ajudar a melhorar o trânsito é conversa fiada. É como vestir camisa branca para protestar contra a violência: não resolve nada", diz o comerciante Gilberto Giusepone, que trabalha no Itaim Bibi, aonde chega de carro sozinho todos os dias. "O que ajuda a diminuir o trânsito é mais metrô, linhas de ônibus mais inteligentes e menos ruas usadas como estacionamento." Dona de um consultório no mesmo centro empresarial onde Giusepone trabalha, a médica Regina Messina até costuma dar carona. Mas só para os amiguinhos de escola de seus dois filhos de 9 e 7 anos - o restante das atividades ela faz "sozinha mesmo". "Tenho carro e tenho onde estacionar. Então, nem cogito (pegar carona)", diz ela, que mora nos Jardins (Oeste), a 4,5 km (a 12 minutos de carro) do trabalho. Na casa, são dois carros: um dela, outro do marido. O centro empresarial onde a médica e o comerciante trabalham recebe 2.000 carros por dia.
EUA têm faixa só para carro com mais ocupantes
Ao contrário do que pensam muitos paulistanos, dar carona pode ajudar sim a diminuir congestionamentos. Em algumas cidades dos EUA existem faixas em autoestradas destinadas apenas para carros com mais de um ocupante, chamadas HOV (high-occupancy vehicle lane). Na Grande Los Angeles são mais de 780 mil km de faixas exclusivas construídas a um custo médio de US$ 3 milhões para cada 1,6 km. A estratégia não é subtrair uma das pistas existentes, mas criar uma extra, com sinalização especial. A medida foi implantada nos anos 1970 como parte de um plano de melhorias da qualidade do ar.
Técnicos divergem sobre carona solidária
Em dez anos, a taxa de ocupação dos automóveis particulares em São Paulo caiu 5% - de 1,5 para 1,4 passageiro por veículo. Significa que, além do número de automóveis, a quantidade de motoristas que não leva ninguém também cresceu. A tendência ao uso individualista do carro é considerada preocupante por especialistas. "É uma tendência burra, contrária a uma visão de cidade solidária", diz o ex-técnico do Metrô Luis Otávio Calagian, hoje consultor independente. Eles se dividem, porém, entre os que consideram esse individualismo uma consequência da deterioração das condições de mobilidade na cidade e os que o veem também como causa do problema, a ser combatida com ações específicas. "Carona solidária é uma boa ideia, mas não boto muita fé (que melhore o trânsito). O que tira o cidadão do automóvel é transporte público e tornar a viagem cada vez mais cara (aumentar estacionamento)", diz o engenheiro de transportes da USP Jaime Waisman. Já Calagian considera necessário, além dessas políticas, ações do poder público e da sociedade civil para fomentar a carona.
Sem rede
Não faltam, na internet, opções de sites que cadastram origens, trajetos e destinos de pessoas dispostas a dar e pegar carona. Mas a rede ainda não é capaz de fazer com que parte expressiva dos motoristas partilhe o carro ou deixe-o em casa. Criador do Caroneiros.com em 2007, primeiro site de oferta e procura de caronas do País, o analista de sistemas Rafael Chagas diz que, dos cerca de 500 "caronistas" cadastrados, 250 são de São Paulo (56% dos trajetos são dentro da Capital). Desses, só um terço são pessoas se oferecendo para dar carona. O número ainda é insignificante frente às 4,6 milhões de viagens diárias de carro na cidade - fica longe, por exemplo, das 2.890 viagens que acontecem diariamente no distrito menos movimentado da Capital (Marsilac, no extremo Sul).
Fonte: Folha de S. Paulo, 24 de maio de 2009