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Na semana passada, a Tesla iniciou a oferta de corridas pagas do Cybercab, seu serviço de táxi sem motorista, em Austin, Texas (EUA).
Mais do que um serviço de táxi autônomo, trata-se do primeiro carro sem volante, pedais nem retrovisores a transportar passageiros pagantes nos Estados Unidos. Horas depois, o NHTSA, órgão federal estadunidense de segurança no trânsito, já abriu uma auditoria sobre o novo veículo.
Inicialmente, a oferta do Cybercab segue limitada à cidade texana, com 45 veículos autorizados a rodar no serviço. A Tesla não anunciou preço, não citou as próximas cidades nem deu calendário de expansão da tecnologia, que pode ser a salvação do futuro da marca.
Isso porque o Cybercab pega a crença da Tesla na automação veicular e leva-a ao limite: são veículos compactos com dois lugares, portas do tipo gaivota, recarga de celular por indução para os passageiros e nenhum comando de direção. Não existe como um humano assumir o volante porque ele simplesmente não existe.
Para fabricar os veículos que podem reverter as quedas nas vendas da montadora, a Tesla adotou o processo "unboxed", mais econômico, que fatia a linha de montagem em módulos paralelos, e cancelou dois outros modelos previstos para priorizar seu táxi robô.
A ambiciosa meta declarada é de, no futuro, vender um Cybercab a cada dez segundos (2 milhões por ano), com preço abaixo de US$ 30 mil (cerca de R$ 153 mil na cotação atual) e custo operacional de US$ 0,20 por milha — o que Elon Musk chama de "transporte público individualizado".
Aposta nas câmeras
O Cybercab enxerga o mundo com oito câmeras e o computador AI4 - com inteligência artificial extensamente treinada. Além de prometer a melhor direção autônoma do mundo, a Tesla faz isso de modo mais complicado: sem utilizar sensores LIDAR (que utilizam lasers para mapear o entorno do veículo) e ultrassônicos para economizar custos.
É uma decisão que vai na contramão de todos os outros conjuntos de condução autônoma em criação no mundo. O sistema de sexta geração da Waymo, por exemplo, combina 13 câmeras, quatro sensores LIDAR e seis radares, de modo que a falha de um sensor não cega o conjunto. Já a Zoox soma câmeras, LIDAR, infravermelho de onda longa e microfones para guiar seus carros.
A escolha de Musk atrai críticas em termos de segurança, já que a falta dos sensores mais robustos vem gerando problemas em condições climáticas mais adversas. Nesse sentido, em março, o NHTSA elevou a investigação sobre o piloto automático já usado nos Teslas convencionais a uma etapa imediatamente anterior a uma exigência de recall, cobrindo 3,2 milhões de veículos.
O motivo envolve nove acidentes (um fatal) em que o sistema de condução autônoma utilizado nos carros da Tesla não teria reconhecido perigos sob neblina, poeira ou reflexo solar. Pior: o software não teria identificado que as câmeras estariam com o funcionamento comprometido até milissegundos antes da colisão.
Como o Cybercab roda uma versão meramente atualizada desse "piloto automático", já disponível nos Tesla com volante, o negócio sofreria um grande baque caso a instalação de sensores adicionais fosse demandada pelas autoridades. Nesse caso, apontam analistas, o carro teria de ser reprojetado quase do zero.
Como se os problemas não fossem suficientes, também há o risco jurídico envolvido na autorização do Cybercab para testes sem motorista.
Isso porque a Tesla seguiu um rito diferente para obter autorização para seu uso, alegando que, como o Cybercab jamais foi projetado para ter um motorista, ele não deveria seguir a burocracia da concorrência que costuma homologar carros normais adaptados para condução autônoma
Promessas x realidade
Para entender por que a Tesla aposta tanto no Cybercab, vale olhar de onde vem o valor da empresa comandada pelo bilionário Elon Musk: análises do banco Morgan Stanley indicam que quase um terço do valor atual de mercado da empresa não está nos carros que ela fabrica, mas na promessa do seu táxi robô
Em 2025, a Tesla comercializou 1,63 milhão de veículos, 8,5% menos do que no ano anterior - a maior queda de vendas de sua história, com o lucro caindo quase pela metade. É algo especialmente significativo considerando que a Tesla foi pioneira na produção e venda em larga escala de carros elétricos, cada vez mais populares.
Em janeiro, Elon Musk disse a investidores que a Tesla vai "fabricar por ano várias vezes mais Cybercabs do que todos os nossos outros veículos somados". Antes, havia garantido que seu táxi robô atenderia metade da população dos EUA até 2025.
Contudo, especialistas questionam as promessas. Adam Jonas, analista do mesmo Morgan Stanley e historicamente simpático à marca, já avisou que transformar isso em negócio lucrativo vai demorar bem mais do que Musk diz em público. A concorrência dá a medida: a Waymo, do grupo Google, começou a testar veículos autônomos em 2009 e hoje, líder do setor, tem apenas alguns milhares de carros rodando.
Também pesa o histórico de Musk, conhecido por suas promessas descumpridas. Como em 2019, quando o empresário já tinha anunciado que haveria mais de 1 milhão de táxis autônomos nas ruas no ano seguinte. (Foto: divulgação)
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