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Eletrificados têm função contra apagões que donos desconhecem

À medida que eventos climáticos extremos se multiplicam pelo mundo, crescem os relatos de transtornos causados pela falta de energia elétrica. Com eles, crescem também os relatos de donos de carros elétricos que, graças à bateria do respectivo veículo, podem enfrentar alguns dias de blecaute com uma ajuda valiosa - o veículo pode ser usado como uma bateria estacionária para abastecer o imóvel em caso de emergências.

Inclusive no Brasil: em maio de 2024, com o Rio Grande do Sul debaixo d'água, a BYD enviou nove unidades do Dolphin ao estado - oito para a Brigada Militar e uma para o Corpo de Bombeiros. Não eram carros de patrulha, mas "powerbanks gigantes". Um deles manteve comunicação, iluminação e carga de celulares por cinco dias ininterruptos em uma base de resgate. No fim, ainda restavam 40% de sua bateria. Outro iluminou o prédio que abrigava a base de busca e salvamento em Porto Alegre - tudo graças à tecnologia conhecida como V2L, disponível em muitos veículos elétricos e híbridos plug-in.

O que é V2L

A sigla significa Vehicle-to-Load: o carro fornece energia em vez de só consumi-la. Um conversor transforma a corrente contínua (DC) da bateria em alternada (AC), a da tomada de casa. O acesso vem por um adaptador plugado ao bocal de recarga ou por tomadas já embutidas - caso da picape BYD Shark, que traz tomadas no padrão brasileiro na caçamba.

Basicamente, o carro elétrico ou híbrido plug-in se transforma em um powerbank móvel. O kit oficial da GWM, por exemplo, custa R$ 899 e traz cabo de cinco metros, régua com três tomadas de 220 V e13, com potência máxima de 3.300 W. Adaptadores de outras marcas ficam entre R$ 700 e R$ 1,4 mil. Com isso, dá para manter geladeira, luzes, roteador, celulares e notebook - não um chuveiro elétrico.

O uso não se limita à emergência e, em trilhas off-road, campings e praias, o mesmo cabo alimenta geladeira portátil, iluminação, caixa de som e até compressor para calibrar pneus - sem o barulho nem o cheiro de um gerador a combustível.

A lista de modelos compatíveis com o V2L cobre quase todas as faixas do mercado no Brasil. Entre os 100% elétricos, BYD Dolphin Mini, GWM Ora 03, Geely EX2 e BYD Seal estão entre os compatíveis. O mesmo vale para híbridos como o GWM Haval H6. O Haval PHEV19, por exemplo, sustenta a carga máxima por cerca de cinco horas e 30 minutos, com as versões de 34 kWh chegando a dez horas. Uma casa brasileira média consome 179 kWh por mês, cerca de 6 kWh por dia, segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Logo, os 44,9 kWh de um BYD Dolphin, por sua vez, cobririam pouco mais de uma semana de uma casa inteira - na prática, de cinco a seis dias, descontadas a reserva de bateria e as perdas na conversão.

Diálise no Natal

No exterior, o recurso já salvou vidas, como no Natal de 2023, quando tempestades derrubaram a rede em Gold Coast, na Austrália. A moradora Kristy Holmes começou ligando as geladeiras dos vizinhos ao seu BYD Atto 3. Depois, teve uma ideia melhor: plugou a máquina de diálise do filho Levi, então com 11 anos, ao veículo. "Rodamos tudo pelo carro", contou ela ao jornal "The Guardian". "Só precisamos de uma noite. Daria para aguentar pelo menos quatro." Na mesma região, outro dono de Atto 3, Matt McLaughlin, ofereceu o carro à vizinhança no Facebook — com uma condição: quem aceitasse teria de admitir publicamente que carro elétrico não é tão ruim. A energia vinda das baterias acabou bombeando fossas sépticas e abrindo portões.

Em maio de 2024, foi a vez de um tornado devastar o interior de Iowa, nos Estados Unidos. Lá, um dono de Ford F-150 Lightning, 100% elétrica, relatou que carregou a picape a 90% antes da tempestade e a ligou na entrada de gerador da casa. Foram quase cinco dias sem luz, gastando 18% de bateria por dia, sem mudar a rotina. Sobraram 8%.Aí entra também uma diferença de escala: o sistema Pro Power Onboard da Ford não é só um adaptador, mas um inversor de bordo com tomadas de 120 V e 240 V na caçamba, em versões de 2 kW, 2,4 kW, 7,2 kW (no híbrido PowerBoost) e 9,6 kW na Lightning. É quase três vezes a potência de um Dolphin ou de um Haval. Mais do que isso, a picape conversa com o quadro de luz da casa por um painel de transferência, alimentando circuitos fixos. A Ford promete até três dias de casa inteira - dez com racionamento. Depois do furacão Helene, em 2024, o uso do sistema foi multiplicado por seis.

UOL, Carros do Futuro, 02/09/206

Categoria: Geral


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