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Gestão Nunes quer conceder Praça Roosevelt por 20 anos

A Prefeitura de São Paulo pretende conceder a Praça Franklin Roosevelt à iniciativa privada, com contrato de 20 anos para a operação, gestão, manutenção, exploração comercial e “ativação sociocultural”. O espaço é um dos mais frequentados do centro paulistano, inclusive à noite, pela proximidade de bares, teatros e da rua Augusta.

A proposta surpreendeu moradores, frequentadores e empresários do entorno, que

relataram ter descoberto sobre o projeto por meio da imprensa e ter apenas ouvido boatos nos últimos meses. Embora com posicionamentos distintos, todos eles citam o mau estado de manutenção atual.

O pagamento inicial mínimo estipulado é de R$ 2,9 milhões. A concessionária também deverá arcar com um “aluguel” mensal de R$ 1.234,00, além de compartilhar 10% da receita bruta semestral. A proposta ainda é preliminar, com abertura de consulta pública veiculada no Diário Oficial do dia 3 de maio.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) incluiu a permissão de venda de “naming rights”. Nesse caso, o nome da marca poderá ser acrescido ao atual da praça, com o repasse de 20% da receita ao município.

A concessão engloba a reforma e reabertura dos quiosques, a exploração econômica do estacionamento subterrâneo e a realização de ao menos 36 atividades culturais, educativas, recreativas e esportivas por semana, entre outras obrigações. Há a permissão de evento quinzenal, por até 12 horas consecutivas, com exigência de aval da prefeitura para público superior a 250 pessoas. A minuta também autoriza novas intervenções e construções desde que previamente avaliadas pela prefeitura. O documento proíbe que a praça seja fechada com grades ou outras barreiras.

Em nota, a Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias respondeu à reportagem que o projeto integra um pacote de “ações de requalificação” para a região central. “As etapas de publicidade deste projeto seguem rigorosamente o rito institucional padrão dos demais projetos de concessão do município”, completou.

O projeto é para o chamado “Complexo Roosevelt”. A denominação também inclui manutenção do belvedere (mirante) na rua Augusta, intervenções nas calçadas da rua Gravataí — que liga a praça ao Parque Augusta—, e ampliação da iluminação e do monitoramento por câmeras abaixo do viaduto Julio de Mesquita Filho.

Uma audiência pública virtual foi marcada para 17 de junho, às 10h. As contribuições para a consulta deverão ser enviadas até 1º de julho, por meio de um formulário virtual, que deverá ser remetido ao email sgmparcerias@prefeitura.sp.gov.br.

O valor estimado do contrato é de R$ 55,8 milhões, que inclui investimentos, despesas e custos obrigatórios ao longo dos 20 anos. A concessão não incluirá os postos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana e a área da Paróquia Nossa Senhora da Consolação.

Lucro estimado e o que mais pode mudar

A prefeitura estima que a concessionária obtenha receita anual de R$ 4,5 milhões, dos quais cerca de R$ 3,5 milhões por meio da cobrança de estacionamento. Publicidade, locação ou exploração dos quiosques estão entre as demais fontes possíveis. A proposta lista uma série de intervenções. Na praça em si, inclui ampliação do cachorródromo, instalação de novo pergolado e intervenções de drenagem para redução de alagamentos, entre outras.

Já a rua Gravataí passará a ser “compartilhada” entre pedestres e veículos. Essa mudança engloba nivelamento da via com a altura da calçada (o que é chamado de “traffic calming”), implantação de canteiros drenantes “jardins de chuva”) e a instalação de oito bancos, entre outras.

No caso do viaduto, as intervenções obrigatórias envolvem as calçadas, com a instalação de cinco câmeras e sete pontos de iluminação. Já o belvedere deverá ser mantido, enquanto se exige melhoria na iluminação e instalação de câmeras abaixo do viaduto.

Surpreendidos com a proposta, a vizinhança e o público da praça têm apontado temores com a concessão e começado a se mobilizar. Há o receio de que repita problemas da experiência no Vale do Anhangabaú, má avaliada até mesmo pela gestão Nunes.

Um tópico sensível envolve alterações no uso e projeto da praça, diante de um histórico de reformas que limitou usos e gerou insatisfação em vizinhos. Outro ponto indicado por parte do entorno é o barulho, pela realização de eventos quinzenais. Professor da Mackenzie, o arquiteto e urbanista Celso Aparecido Sampaio considera que uma concessão pode “gourmetizar” a praça, como nos parques do Ibirapuera e Villa-Lobos. “Corre o risco de perder a sua naturalidade. A minha preocupação é que venha a se tornar um ‘pocket’ Vale do Anhangabaú”, destaca.

Ele afirma que a praça é uma das mais frequentadas da cidade, em todos os turnos e por públicos diversos, como skatistas, artistas, famílias com crianças e animais de estimação e outros. Não se opõe, contudo, à cobrança de estacionamento subterrâneo.

Presidente do Conseg da região, Marta Lilia Porta considera que a praça está hoje “abandonada”, mas reclama de a proposta não ter sido mais divulgada. Ela aponta, sem ter tido contato com a minuta em si, que não se oporia à gestão privada, masque teme aumento de barulho com eventos.

O projeto também surpreendeu Rodolfo Vázquez, fundador da Satyros, uma das companhias de teatro ligadas à renovação da praça nas últimas décadas. “Vejo com um pouco de preocupação”, disse ao saber da proposta pela Folha. Apontou que não inclui área para apresentações artísticas ao ar livre, embora seja um uso conhecido do espaço.

A praça foi inaugurada em 1970, no aniversário da cidade, como parte das obras de implantação da ligação Leste-Oeste. Recentemente, outra proposta da prefeitura envolvendo a iniciativa privada gerou repercussão no entorno: a inclusão do Parque Augusta nos novos “polos gastronômicos” de parques municipais. A previsão é de instalação de um ponto de alimentação no local.

Folha de S. Paulo - Cotidiano - SP - 04/06/2026

Categoria: Cidade


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