O "carro voador" brasileiro finalmente deixou o chão: no último dia 19 de dezembro, a Eve Air Mobility - startup de mobilidade urbana da Embraer - realizou o primeiro voo de seu protótipo em escala real em Gavião Peixoto (SP). O feito é um marco técnico para a engenharia nacional, validando os sistemas de controle e propulsão elétrica da aeronave. Contudo, enquanto o orgulho brasileiro soma um feito a seu favor, uma pergunta paira no ar: o projeto vingará comercialmente em um mercado global?A depender da concorrência, tudo indica que é possível - mas não será fácil.
Concorrência hostil
O protótipo, que por ora voou de forma remota (sem piloto a bordo), testou com êxito a decolagem vertical e o voo pairado. A promessa da Eve é sedutora: um veículo elétrico de decolagem e pouso vertical (eVTOL) com design simplificado - oito rotores para subir e uma hélice traseira para cruzeiro. O foco está em eficiência e baixo custo operacional, com viagens que custariam pouco mais do que um Uber Black. Com uma carteira de intenções de compra que beira as 3.000 unidades, a empresa ostenta a maior fila de clientes do setor, avaliado em bilhões de dólares. Mas cartas de intenção não são contratos firmes, e o caminho até a entrega, prevista para 2027, tem seus obstáculos.
O primeiro obstáculo é a concorrência: enquanto a Eve celebra seu voo inaugural no final de 2025, rivais norte-americanos como a Joby Aviation e a Archer já realizam voos tripulados há mais tempo e estão passos à frente no calvário burocrático da certificação junto à FAA (agência de aviação dos EUA). A estratégia da Embraer foi de "seguir rápido, mas com segurança", apostando que a maturidade de seus 56 anos de experiência aeronáutica compensaria a entrada tardia nos testes físicos. Mas é uma aposta de risco, pois, no Vale do Silício, quem chega primeiro muitas vezes dita as regras.
Além disso, o "ecossistema" - palavra comum no vocabulário dos executivos do setor - ainda inexiste. Para que o eVTOL não seja apenas um helicóptero silencioso, é necessária uma rede de "vertiportos" (pontos de pouso) e infraestrutura robusta de carregamento elétrico. Outro aspecto crucial é um sistema de gerenciamento de tráfego aéreo urbano capaz de evitar que os céus de São Paulo ou Nova Iorque virem um caos. Nesse aspecto, ponto para a Eve, que tem trabalhado junto à ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) em critérios de aeronavegabilidade, que podem se tornar um padrão no setor. O voo de Gavião Peixoto prova que a Embraer sabe fazer a máquina voar. O desafio agora é provar que a conta fecha. Com baterias pesadas limitando a autonomia e custos de certificação que drenam o caixa, a Eve precisa converter o entusiasmo dos investidores e as encomendas de papel em uma operação real e lucrativa.
O Brasil entrou na corrida, mas a linha de chegada ainda está longe. (Imagem: divulgação)
UOL, Carros do Futuro, 24/12/2025
