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'A inteligência artificial vai melhorar a gestão e o lucro do varejo'

A inteligência artificial (IA) se tornou uma importante aliada nos negócios do varejo. Essa é a visão de Fábio Queiroz, presidente da Associação das Américas de Supermercados (Alas) e cofundador da plataforma Innovation Week (responsável pelo Rio Innovation Week e pelo São Paulo Innovation Week). Ele afirma que os agentes de IA se tornaram vendedores capazes de sugerir e vender produtos aos consumidores de acordo com interesses pessoais. “Antes, o chatbot dava as informações sobre os produtos. (Hoje) O agente de IA já abre a janela dizendo: ‘E aí, Fábio, vai pagar no débito ou no crédito?’. E a venda acontece”, afirma. Com a aplicação da IA em todas as áreas, especialmente em gestão, o especialista diz que melhorar a eficiência e evitar erros resultarão em maiores ganhos para os empresários do setor varejista.

Para Queiroz, o São Paulo Innovation Week (SPIW), do qual o Estadão é sócio, será um espaço para não só conhecer novas tecnologias, mas também para fazer negócios.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Na sua visão, qual é atualmente a importância da inovação para o setor varejista, que experimenta tanta competição com a chegada de novas tecnologias de vendas online?

A inovação caminha lado a lado com todos os setores da sociedade, e não é diferente no caso do varejo. Acabo de voltar da NRF, que é a maior feira de varejo do mundo (realizada em janeiro, em Nova York). Começamos a ver a aplicação das coisas interferindo na linha final do varejo, que tem margens apertadas. (O investidor bilionário) Warren Buffett dizia que, se tivesse apenas um dólar, ele investiria em marketing. No varejo, parafraseio dizendo que esse um dólar deve ser investido em gestão. É na gestão que o dinheiro vai para o ralo.

Como o varejo tem aplicado IA para melhorar negócios?

A IA está em tudo no varejo. Ela é muito importante, por exemplo, no mapeamento do comportamento de compras do consumidor em até dez compras. Tem até um caso de uma mulher que estava grávida, e o marido ainda nem sabia, mas já começou a receber propagandas relacionadas a bebês. Essa história tem limites éticos que discutimos muito no Rio Innovation Week, e traremos isso para o SPIW. Agora, vejo que a IA precisa mexer na linha final dos balanços das empresas (o valor que sobra após subtrair despesas, custos, juros e impostos da receita total da empresa).

Como isso será possível? Em 2025, o boom eram os agentes de IA. A inteligência artificial era alimentada com dados e ela entregava uma informação. Hoje, o agente de IA funciona mais como um vendedor. Ele identifica que sou flamenguista e vai me vender produtos do Flamengo. Antes, o chatbot dava as informações sobre produtos. (Hoje) O agente de IA já abre a janela dizendo: ‘E aí, Fábio, vai pagar no débito ou no crédito?’. E a venda acontece.

Onde a inovação pode fazer a maior diferença na operação de uma varejista? É na gestão. A operação de qualquer varejo é muito dura. Comprar e vender bem, lidar com logística, repor estoques e gôndolas e ainda gerenciar o fluxo de caixa no varejo é uma loucura. Sobra pouco tempo para a gestão. Quando a tecnologia nos ajuda a gerir o nosso negócio, isso é música para os ouvidos. Os negócios de varejo têm as margens muito espremidas, na faixa de 1% a 10%. Isso fará as varejistas venderem mais, e com mais lucro por causa da IA.

 

O varejo sofre com falta de mão de obra. A IA pode ajudar a atacar esse problema? Sim, mas com um enorme asterisco. Ela vai aumentar a produção e a demanda. Então, vai aumentar também os chamados empregos virtuais, empregos das inteligências artificiais, e os empregos formais. Vamos precisar de gente mais qualificada. A discussão não é acabar com empregos, mas como fazer para qualificar cada vez mais a mão de obra. Identificar os consumidores na loja física é muito difícil, mas hoje a maioria já faz. Pode ser por conexão logada em Wi-Fi ou em promoção em aplicativo próprio. Mas quantos varejistas estão transformando essa catalogação de clientes em incremento de vendas? Saber o que fazer com os dados é o novo petróleo.

O retail media (anúncios dentro das lojas) já é uma fonte de renda importante para as varejistas?

Quem não está explorando está deixando dinheiro na mesa. O retail media é o negócio dentro do nosso negócio.

Como o retail media funciona hoje e como o empresário do varejo pode usá-lo para melhorar sua margem? O primeiro nível do retail media é a entrada dos painéis de LED nas lojas, que substituem o antigo cartaz. Podem ser telas que leem o consumidor que está à sua frente e, por inteligência artificial, mapeiam o hábito de consumo da pessoa. Com isso, quem bebe cerveja vê propaganda de cerveja, e não de vinho. Isso já acontece. Quando você levanta o produto da gôndola, a tela de LED da loja te dá todas as informações daquele produto, e isso interfere na tomada de decisão do consumidor. A segunda etapa é trazer anunciantes.

Como o sr. prevê que será o supermercado do futuro?

 O supermercado do futuro será aquele que terá as tecnologias que já existem hoje, mas que cairão no gosto do consumidor. Elas ganharão escala com a redução de custos. Eu estarei em casa e verificarei através do aplicativo do supermercado se tem vaga no estacionamento, o fluxo de clientes naquele horário, o trânsito até a loja e até deixar pedida a carne e o queijo fatiado que quero comprar, para não ficar em filas. No pagamento, o maior problema dos supermercados hoje, tudo poderá ser feito no aplicativo, sem filas. Isso pode ser feito com tecnologias que detectam o que foi retirado por você de cada gôndola ou por um scanner com IA que identifica o que tem no carrinho.

Sobre o São Paulo Innovation Week, a ideia é personalizar o evento para São Paulo ou replicar o que ocorreu no Rio?

Num paralelo com o varejo, o arroz que faz sucesso no Rio não é o que faz sucesso em São Paulo. Não é a mesma cerveja. Trazer um evento copiado do Rio para São Paulo seria ingênuo. Respeitamos a cultura de São Paulo, a sua força e suas especificidades. O que faremos é compartilhar as boas práticas do Rio com São Paulo, nossa expertise no evento que se tornou o maior do mundo através dos nossos processos, experiências, erros e acertos. Agora, vamos pautar as discussões a cada seis meses, no Rio e em São Paulo. Então, quem participar do evento no Rio precisa participar da conferência em São Paulo.

Hoje vemos pelas redes sociais cortes ou vídeos curtos das principais palestras de conferências de inovação no Brasil e no mundo. Por que as pessoas continuam indo aos eventos? Vou responder com um exemplo prático. No Rio de Janeiro, a área de open innovation do evento teve 2 mil startups, e elas estavam no mesmo pavilhão dos investidores-anjo. Ali, elas tiveram a oportunidade de bater à porta de um deles lá e falar: ‘Eu preciso de R$ 1 milhão para tirar meu sonho do papel ou para acelerar aquilo que eu já criei’. O investidor pode condicionar o aporte a algumas métricas. Ao lado, temos os mentores. O empreendedor pode ir até eles, contar sua história e receber orientações sobre como atender aos pedidos dos investidores.

O Estado de S. Paulo - Economia & Negócios - SP - 28/02/2026

Categoria: Geral


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