Se você pesquisou o universo automotivo recentemente, certamente se deparou com siglas como BEV, PHEV e MHEV para descrever a motorização do carro. Os acrônimos descrevem diferentes tecnologias e níveis de eletrificação.
Essas soluções não são novas, mas foi a partir de 2020 que ganharam tração definitiva no mercado global. No Brasil, boa parte dessa virada se deve à chegada em peso das fabricantes chinesas — com destaque para BYD e GWM. As marcas desembarcaram no País em meados de 2023 com estratégias agressivas e logo assumiram a liderança nos segmentos de carros híbridos e elétricos.
Esse movimento chacoalhou o cenário nacional e forçou as montadoras tradicionais a se reinventarem com produtos mais tecnológicos. A exemplo de Stellantis e General Motors, diversas empresas firmaram parcerias com grupos chineses ou aceleraram o desenvolvimento de conjuntos locais.
Tanta novidade em pouco tempo, no entanto, acabou gerando confusão na cabeça do consumidor. Embora os veículos eletrificados já façam parte do cotidiano nas ruas do País, muitos ainda têm dúvidas sobre o funcionamento dessas tecnologias e o significado das siglas MHEV, HEV, PHEV, REEV e BEV. Por isso, o Jornal do Carro traz um descritivo de como funciona cada solução.
Quais são as diferentes tecnologias de carros eletrificados
As siglas dos modelos eletrificados têm uma função simples: identificar a tecnologia de propulsão adotada pelo veículo. Mais importante do que memorizar as letras, porém, é entender como cada sistema atua na prática.
MHEV: Mild Hybrid Electric Vehicle (Híbrido Leve)
Trata-se do degrau de entrada da eletrificação, já presente em diversos modelos nacionais da Stellantis, como Fiat Pulse, Fastback e Peugeot 208 e 2008. Outras marcas, a exemplo de Volkswagen e Honda, também preparam lançamentos com o sistema para reduzir emissões e economizar combustível.
Mas como funciona um híbrido leve? O sistema utiliza um motor elétrico pequeno para auxiliar o propulsor a combustão em partidas e retomadas de aceleração. Ele não é capaz de mover o carro sozinho. Por isso, alguns críticos dizem não se tratar de um “híbrido de verdade”.
Esse sistema substitui o alternador e o motor de partida convencionais, sendo alimentado por uma bateria auxiliar (geralmente de 12V, 24V ou 48V). Por ter custo de implementação menor, a tecnologia MHEV tende a se popularizar rapidamente nos próximos anos.
HEV: Hybrid Electric Vehicle (Híbrido Pleno ou Convencional)
No segundo estágio da eletrificação estão os híbridos plenos. Bons exemplos dessa categoria são o Toyota Corolla Hybrid e as versões de entrada do GWM Haval H6.
Aqui, o motor elétrico é capaz de movimentar o veículo sozinho, embora em baixas velocidades e por curtas distâncias. O trunfo da tecnologia está na gestão combinada: o sistema alterna automaticamente entre o motor elétrico e o térmico (ou faz ambos trabalharem juntos), buscando a máxima eficiência energética.
Como não há tomada para recarga externa, a bateria é alimentada pela regeneração nas frenagens e desacelerações ou pelo próprio motor a combustão.
PHEV: Plug-in Hybrid Electric Vehicle (Híbrido Plug-in)
A grande diferença entre o híbrido plug-in e o convencional reside no tamanho da bateria e na possibilidade de recarga na rede elétrica por meio de cabo, a exemplo do que ocorre nos carros totalmente elétricos. Um dos modelos mais emblemáticos que popularizaram esse formato no País é o SUV BYD Song Plus.
Por contar com um pacote de baterias mais robusto e motores mais potentes, o modelo PHEV entrega autonomia elétrica superior no uso diário e maior alcance no ciclo combinado (gasolina e eletricidade).
O ponto de atenção é a recarga: para o carro trabalhar na sua máxima eficiência, é necessário manter a bateria carregada. Sem carga externa, o modelo roda como um veículo híbrido convencional, mas arrasta mais peso por conta da bateria maior, o que reduz sua eficiência.
BEV: Battery Electric Vehicle (Veículo Elétrico a Bateria)
Por fim, estão os modelos 100% elétricos. Dentre os exemplos mais conhecidos do mercado nacional estão o BYD Dolphin, o GWM Ora 03 e o Geely EX2.
Como o próprio nome diz, o carro elétrico funciona exclusivamente com propulsores elétricos e baterias, sem nenhum tipo de interferência de combustível fóssil.
A capacidade dessas baterias é medida em quilowatt-hora (kWh), métrica equivalente ao volume em litros dos tanques de combustível. Quanto maior a capacidade em kWh, maior tende a ser a autonomia — embora fatores como peso, aerodinâmica e potência do motor também influenciem o alcance final.
O abastecimento pode ser feito em corrente alternada (AC), geralmente por carregadores domésticos (wallbox) de menor potência, ou em corrente contínua (DC), nas estações rápidas. Em um eletroposto DC de 70 kW, por exemplo, o Geely EX2 (com bateria de 39,4 kWh) recupera de 30% a 80% da carga em cerca de 21 minutos. Já em um wallbox AC doméstico, são necessárias cerca de 6,5 horas para completar a carga de 0 a 100%.
REEV: Range Extended Electric Vehicle (Veículo Elétrico de Autonomia Estendida)
Essa solução é vista como tendência para os próximos anos. Ao contrário de um híbrido tradicional, em um veículo híbrido em série há um extensor de alcance (Range Extender) e o motor elétrico é o único responsável por tracionar as rodas e, por conseguinte, mover o carro. O propulsor a combustão atua como uma espécie de gerador, que recarrega a bateria.
Esta tecnologia é vista como uma solução estratégica para oferecer carros com “sensação de elétrico”, mas com preços mais acessíveis que os veículos 100% elétricos (BEV). Isso sem a “ansiedade de autonomia”, já que o motorista pode simplesmente abastecer com gasolina para continuar gerando energia.
O Leapmotor C10 foi um dos pioneiros na oferta da tecnologia ao mercado brasileiro. O CEO da Stellantis, que controla a marca chinesa no Brasil, Herlander Zola, já confirmou que a solução será usada em outras empresas do grupo, como Jeep e Fiat.
Qual tecnologia escolher?
Se você está buscando carros com algum tipo de eletrificação, é importante definir qual alternativa melhor se encaixa na sua rotina.
Modelos híbridos leves entregam uma melhora tímida no consumo de combustível em comparação com as versões puramente a combustão. O Fiat Pulse Hybrid, por exemplo, registrou um ganho de 10,7% na economia de combustível em relação às versões sem tecnologia MHEV.
Os híbridos convencionais e plug-in oferecem mais autonomia, menor consumo de gasolina e excelente eficiência energética. São indicados para quem realiza trajetos urbanos diários e longas viagens. Além disso, diversos estados e municípios brasileiros oferecem isenção de rodízio ou descontos no IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores) para esses modelos.
Já os veículos totalmente elétricos costumam ter números de autonomia total menores do que os híbridos em viagens longas, mas são imbatíveis no uso urbano. O custo por quilômetro rodado é consideravelmente menor, já que o valor do kWh cobrado nas recargas é muito mais barato do que o litro da gasolina ou do etanol. (Imagem: divulgação)
Jornal do Carro, 31/07/2026
