Empreendimentos devem ampliar a oferta de serviços e se integrar cada vez mais às áreas residenciais e corporativas nos próximos 10 anos, sinalizou Francisco Ritondaro (na foto) ao Diário do Comércio durante o 11º Latam Retail Show
Foi-se o tempo em que ir ao shopping center significava apenas um dia de compras. Atualmente, esses ambientes se tornaram centros de conveniência, com academia, manicure, restaurantes, cinema, farmácia e, se sobrar algum tempo, os clientes fazem compras. Diante dessas mudanças, surge o questionamento: como será o shopping daqui a 10 anos?
Para o especialista e presidente da Gouvêa Malls, Francisco Ritondaro, a tendência é que os shoppings se tornem cada vez mais hubs urbanos, com aumento na disponibilidade de serviços e uma certa diminuição no espaço voltado para lojas.
Isso não significa que as lojas irão sumir dos shoppings mas sim, que não serão tão grandes como atualmente, afirmou, em conversa com o Diário do Comércio durante o 11º Latam Retail Show 2026, realizado na última semana pela pela Gouvêa Ecosystem no Distrito Anhembi (Zona Norte da Capital paulista).
“Quando eu falo em diminuir, é porque o varejo tradicional não consegue ter desempenho para grandes áreas do shopping. Isso faz com que seja necessário isolar essa área ou que haja vacância. Isso é ruim, porque o shopping começa a ter um problema de atratividade”, explica Ritondaro, que acredita que essas áreas serão cada vez mais ocupadas por espaços voltados à conveniência.
Esses ajustes nas lojas também tendem a ser comuns, considerando que grandes redes varejistas, como as Casas Bahia, fecharam diversas lojas, deixando espaços vazios e obrigando os empreendimentos a repensarem a ocupação dessas áreas.
“Nós vamos ter lojas menores, pois o custo de manter uma loja de 2.000 metros quadrados é alto. Mesmo sendo loja âncora, precisa pagar condomínio, custo com o pessoal. Então, vemos áreas de venda menores, repensadas, muitas vezes para showroom”, diz Ritondaro.
Ainda segundo o especialista, os shoppings irão deixar cada vez mais de ser lugares isolados, que, às vezes, as pessoas atravessam bairros para ir, e se tornarão ativos voltados para microrregiões. Por exemplo, os shoppings também podem servir para ter asilos, com outras ofertas de produtos, integrando diferentes modelos de conveniência. “Em São Paulo, muitas vezes, para andar 2,3 km, você demora 1 hora, dependendo do trânsito. Então, é preciso ter um shopping relevante e formatado para aquela comunidade”.
Enquanto em 2014 o setor de alimentação representava 11% do mix de lojas, onze anos depois esse percentual cresceu para 13% em 2025. Já o número de lojas satélites saiu de 74% para 55,8%, segundo o Censo Abrasce.
Hubs Urbanos
Existem dois movimentos no setor de shopping centers que tendem a aumentar com o decorrer do tempo. Na visão do especialista, grandes empreendimentos, como Allos, Multiplan e Iguatemi, irão investir cada vez mais em áreas privadas, para determinar os novos shoppings. Dessa forma, serão construídos condomínios e edifícios residenciais e corporativos para fazerem parte da rotina daqueles shoppings e, consequentemente, aumentar o fluxo de visitantes.
É o caso da Allos, detentora de shopping centers como o Shopping Parque Dom Pedro e o Shopping Leblon, que possui mais de 1,7 milhão de metros quadrados de áreas privativas disponíveis e 72 torres em desenvolvimento. De acordo com Renato Floh, diretor executivo comercial da Allos, que partricpou do painel "A transformação dos novos modelos de negócio para shopping centers", junto com Ritondaro e Adriano Sartori, CEO da CBRE Brasil, essas áreas são destinadas ao desenvolvimento de empreendimentos residenciais e comerciais no entorno dos shoppings.
Com a ocupação desses espaços por moradores e trabalhadores, o shopping local passa a ter um fluxo mais recorrente, com frequência até cinco vezes maior, aumentando o número de consumidores qualificados e as vendas. “Buscamos transformar os nossos ativos imobiliários em verdadeiros canais de consumo, de serviços e experiência”, diz.
Ele continua, dizendo que os terrenos adjacentes aos shoppings são um grande potencial para criar um novo consumidor, que, por estar ao lado do shopping, acaba indo diversas vezes. "Isso também diminui o custo, porque trazer essas pessoas que não estão nas proximidades exige custo com eventos, é um marketing caro. Ao construir esses equipamentos comerciais e residenciais, ajuda a ter um fluxo recorrente que está por trás deste investimento imobiliário.”
De acordo com Ritondaro, a tendência é que os futuros shoppings já sejam planejados considerando também o que será desenvolvido em seu entorno, como áreas residenciais e corporativas. O desafio, no entanto, será encontrar terrenos com grandes áreas disponíveis para viabilizar esses novos empreendimentos.
Shoppings menores ganham espaço
Outro movimento que chama a atenção do especialista é a criação de shoppings menores em áreas de grande circulação, especialmente próximas a redes de transporte. Esses espaços reúnem uma variedade de lojas e serviços, como vestuário, alimentação, salões de beleza e farmácias. É o caso da Estação Vila Sônia, em São Paulo. Segundo Ritondaro, esse modelo é comum no Chile e tende a ganhar espaço no Brasil.
“Teremos shoppings em novos lugares. Por exemplo, o Parque Ibirapuera, que fatura R$ 150 milhões por ano, é um novo shopping. Isso pode ocorrer em aeroportos, centros comerciais. O Itaú tem uma sede no Jabaquara, com 15 mil funcionários, e estamos criando um verdadeiro shopping center no local, com oferta de gastronomia, serviços, cabeleireiro e manicure. Então, o local de trabalho está virando um shopping”, diz.
Ainda segundo o especialista, a digitalização fez com que muitos consumidores deixassem de ir ao shopping com o objetivo principal de fazer compras, tornando a experiência um fator cada vez mais importante para atrair o público. “O shopping precisa se reinventar, as vitrines precisam ficar melhores, o consumidor precisa de um motivo para entrar nas lojas”, completa.
De acordo com Ritondaro, atualmente existe no mercado um movimento de compra de shoppings menores, menos consolidados, que não têm tido uma boa performance, por empreendimentos consolidados. “Muitos fundos imobiliários têm comprado esses shoppings de empreendedores individuais ou empresas familiares. O Brasil tem 658 shoppings, as grandes empresas e esses fundos têm menos de 200. E esses shoppings, muitas vezes, não têm potencial de investir e precisam fazer essa transação”, explica.
Com isso, a expectativa é que o Brasil tenha cada vez mais shoppings com mais capital e tecnologia, uma vez que esses shoppings que não se adequam ao novo mercado correm o risco de ter uma alta taxa de vacância.
Diante do cenário atual, com alta taxa de juros e o pedido de recuperação judicial de grandes empresas do varejo, a expectativa para o crescimento do setor de shopping centers é pequena, com crescimento de cerca de 1% de novos shoppings nos próximos 3 a 5 anos. (Imagem: divulgação)
Diario do Comercio, 21/09/2026,https://agenciadcnews.com.br/publicacao/s/das-compras-a-conveniencia-qual-e-o-futuro-dos-shopping-centers
