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Carro 100% a álcool é nova aposta de marcas para driblar impostos no Brasil

A Chevrolet acaba de fazer algo que não se via no Brasil há mais de duas décadas: lançar carros de fábrica calibrados para rodar só com etanol, sem a opção flex. São os novos Onix Eco (hatch) e o Onix Plus Eco (sedã), que estreiam como as opções mais curiosas da linha 2027 do modelo.

Eles trazem o mesmo motor 1.0 turbo de 115 cv, 18,9 kgfm e câmbio automático de seis marchas das versões bicombustível. Um detalhe que chama atenção, entretanto, são os preços de R$ 103.190 e R$ 106.990 (R$ 99.990 e R$ 103.990, respectivamente, em promoção de lançamento): é quase o mesmo que o das versões de entrada, 1.0 manuais e aspiradas.

Mas por que abandonar o flex justamente no país que o inventou? A resposta está menos no motor e mais nos impostos: em julho de 2025, o governo federal criou, dentro do programa Mover — de incentivo à indústria automotiva—, a categoria Carro Sustentável, que zera ou reduz o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de veículos nacionais eficientes.

Essa "eficiência" inclui, entre outros quesitos, a quantidade de dióxido de carbono que o veículo emite por quilômetro rodado, que não pode ser maior do que 83 g CO²/km. Nesse aspecto, carros movidos exclusivamente a etanol estão entre os mais beneficiados, ao lado de elétricos e híbridos flex. Até então, só as versões aspiradas e manuais do Onix conseguiam o IPI zerado; as turbo automáticas ficavam de fora por não atingirem os índices de eficiência exigidos. Assim, a sacada dos projetistas residiu em se apoiar no fato de que, pela etiquetagem do Inmetro, um carro a etanol tem emissão zero de CO² por km rodado.

Logo, ao calibrar o motor turbo para queimar apenas álcool, a Chevrolet ganhou um ponto extra na avaliação do governo federal e finalmente incluiu uma versão automática dentro do benefício fiscal. Dessa forma, o Onix Eco pôde se adequar ao benefício que, nas versões turbo flex, é indisponível devido aos 100 g CO²/km emitidos pelo motor rodando a gasolina.

O resultado é que o Onix Eco oferece turbo e câmbio automático pelo preço de carro mais básico, em um corte de até 7,8% na comparação com variantes equivalentes turbo flex. Ao mesmo tempo, mantém-se os melhores números de performance e tem-se possibilidade de abastecimento em praticamente qualquer posto de combustível do país.

 Ideia a ser copiada

A Chevrolet não está sozinha, e o retorno de propulsores 100% etanol está nos planos de várias montadoras do Brasil. A Volkswagen, por exemplo, é uma que já admitiu ver espaço para modelos só a álcool, ao passo que a Stellantis testa a tecnologia nacional há pelo menos três anos, enquanto decide se aposta nela.

A ciência ajuda a sustentar o discurso ambiental: um levantamento da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) estima que, entre 2003 e 2023, o uso de etanol pela frota brasileira evitou o lançamento de cerca de 660 milhões de toneladas de CO² na atmosfera, na comparação com um cenário 100% gasolina.

Há, porém, uma ressalva relevante: parte da literatura científica alerta que o etanol de primeira geração — feito da cana — compete diretamente por terra agrícola com o cultivo de alimentos, de modo que a expansão do uso álcool poderia ameaçar espaço para colheita de alimentos. Estudos brasileiros recentes relativizam esse risco, mas ele segue no centro da discussão sobre escalar o biocombustível. O que deve ditar o sucesso da retomada dos carros 100% a álcool, entretanto, é sua adoção pelo mercado. (Imagem: Agência Brasil)

UOL, 09/06/2026

Categoria: Geral


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